Resenha do artigo “Novas práticas culturais da escrita, novas perspectivas da Crítica Textual”

A professora Dra. Maria Clara Paixão de Sousa (USP) publicou, no blog Humanidades Digitais, uma interessante resenha a respeito do artigo “Novas práticas culturais da escrita, novas perspectivas da Crítica Textual” do professor Patrício Barreiros. Vale a pena conferir. 

Os impactos da difusão digital no campo amplo das humanidades tem sido intensamente reconhecidos e debatidos – mas há uma região desse amplo terreno na qual os efeitos são particularmente transformadores: a crítica textual. Disciplina milenar na origem dos estudos humanísticos modernos, a crítica textual tem no texto, a um tempo, seu objeto e seu instrumento de trabalho. Nesse campo, as tecnologias de difusão digital trouxeram grandes mudanças metodológicas, provocando transformações profundas que estiveram no cerne dos grandes debates sobre os impactos da computação sobre as humanidades antes mesmo do termo “Humanidades Digitais” ser cunhado. No ambiente da crítica textual em língua portuguesa, os efeitos do trabalho em meio eletrônico chegam em anos mais recentes, mas com grande força (como discutem Ana Paula Banza e Maria Filomena Gonçalves no volume recente que comentamos aqui).

No Brasil, em particular, das pesquisas ocupadas em explorar as alianças entre as tecnologias digitais e o trabalho tradicional da crítica textual destaca-se o projeto da edição do acervo do escritor baiano Eulálio Motta, empreendido por Patrício Nunes Barreiros em sua tese de doutoramento na Universidade Federal da Bahia, defendida em 2013 sob orientação da professora Célia Marques Telles, resultando no portal O Pasquineiro da Roça. Mais recentemente, no artigo Novas práticas culturais da escrita, novas perspectivas da Crítica Textual: rumo às hiperedições” –  cf. [1],  Barreiros discute as transformações trazidas pelo meio digital para a prática do trabalho em crítica textual, mostrando alguns elementos importantes da experiência da construção do Pasquineiro, e, principalmente, trazendo à tona as mais recentes discussões teóricas e metodológicas da área.

Entre os vários os pontos de interesse do artigo, queremos destacar os dois que mais evidenciam a relevância de sua leitura. O primeiro é a informação bibliográfica trazida pelo artigo: o quadro das referências trabalhadas e discutidas por Barreiros inclui autores que não tem estado muito presentes nos trabalhos em língua portuguesa da área – é o caso, muito especialmente, da obra de José Manuel Lucía Mejías, examinada no artigo em diferentes instâncias [2]. O segundo ponto, talvez ligado a esse primeiro, é a abordagem conferida pelo artigo ao conceito de “hiperedição“. Partindo de uma apresentação ampla de algumas definições importantes na literatura, onde se destaca o caráter multifacetado da hiperedição (“…uma edição híbrida que apresenta novas potencialidades de leitura e análise dos textos“), Barreiros passa a mostrar os efeitos singulares dessa forma de tratamento textual sobre os objetivos do trabalho crítico. Em particular, salientaríamos o seguinte trecho dessa discussão (Barreiros, 2014:54):

A principal característica de uma hiperedição é que ela somente se efetiva no meio digital, diferente de outros tipos de edições digitais, às vezes chamadas de eletrônicas ou hipertextuais, que reproduzem os modelos das edições pensadas para o universo dos impressos

Esse é um ponto central da discussão, a meu ver – e é de fato o que nos permite compreender mais profundamente o que foi declarado brevemente mais acima sobre a importância dos efeitos do meio digital para a crítica textual. Notemos, a partir do que diz Barreiros, que a hiperedição é um trabalho feito no meio digital, e não simplesmente um trabalho de edição tradicional veiculado no meio digital. Essa distinção é importante por nos permitir entender como as tecnologias digitais se entranham na prática do trabalho de edição, e passam a compor, aí, uma nova metodologia.

Mais que isso: a discussão trazida por Barreiros nos permite compreender (como poucas no ambiente da filologia em português) que o trabalho de edição no meio digital pode ir muito além da adaptação apressada de técnicas advindas do impresso. Pode, de fato, renovar a prática filológica e lhe conferir uma relevância de que (suspeito) poucos já se deram conta, justamente neste momento em que temos a possibilidade de re-editar o patrimônio da cultura escrita em português. A reflexão de Barreiros é pioneira nesse sentido, como foi seu trabalho com o acervo de Eulálio Motta – tornando seu artigo mais recente leitura de relevância central para os interessados nos horizontes que se abrem para o trabalho nas humanidades frente às novas formas de produção e difusão do texto.

Referência Completa

Barreiros, Patrício Nunes. Novas práticas culturais da escrita, novas perspectivas da Crítica Textual: rumo às hiperedições. Filolologia e Linguística Portuguesa, São Paulo, v. 16, n. 1, p. 31-62, jan./jun. 2014. Disponível em http://revistas.usp.br/flp/article/view/83492/86440

Leituras Sugeridas – Referências em Barreiros, 2014

Lucía Megías, José Manuel. 2006. De las bibliotecas a las plataformas de conocimiento (notas sobre el futuro del texto en la era digital). In: Santiago, Ramón; Valenciano, Ana; Iglesias, Silvia. Tradiciones discursivas, edición de textos orales y escritos. Madrid: Editorial Compultense.

Lucía Megías, José Manuel. 2007. Hacia nuevos paradigmas textuales (edición y difusión de los textos literarios en el siglo XXI). Madrid: Universidad Complutense de Madrid.

Lucía Megías, José Manuel. 2008. La informática humanística: una puerta abierta para los estudios medievales en el siglo XXI. Revista de Poética medieval, n. 20, Madrid, pp. 163-185.

Lucía Megías, José Manuel. 2010. Reflexiones en torno a las plataformas de edición digital: el ejemplo de la Celestina. In: Poalini, Devid. (Coord.). De ninguna cosa es alegre posesión sin compañía, estudios celestinescos y medievales en honor del profesor Joseph Thomas Snow. Tomo I. New York: Seminário Hispánico de Estudios Medievales, p. 226-251.

Lucía Megías, José Manuel. 2012. Elogio del texto digital, claves para interpretar el nuevo paradigma. Madrid: Fórcola.

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